anjinhos




textinho escrito no fb dia 25 de março de 2020 na ocasião do pronunciamento de bolsonaro, posto aqui a pedidos pois será citado em outro texto:
     


    Considerando a temperatura que o pronunciamento de nosso presidente Jair Bolsonaro chegou hoje acabei bebendo um pouquinho além da conta, o que significa que me sinto ligeiramente apto a traçar qualquer esboço de análise sobre o que foi dito em rede nacional hoje. Devo ter assistido o video umas 5 vezes, porque precisava que perdesse o efeito, a asfixia tamanha que me gerou, essa desgraçada sensação de irrealidade, não logrei que vingassem meus objetivos, ao invés disso foi se desenhando esse texto tortuoso em algum lugar nas tempestades elétricas dentro do meu crânio. E ecoava o final do texto do ensaio “Acabou!”de Silvia Viana :

    Em uma identificação quase sem lacunas com o capital suicida, sem promessas, sem futuro, pura ameaça, esse novo homem abre o peito e exige: “cumpra-se!”. Era isso que assistíamos na televisão enquanto batiam-se as panelas? Eu acho que sim.



    Pelo que li dos comentaristas de plantão do facebook fez-se a análise acertada que não se trata de loucura ou burrice simplesmente, existe cálculo político por trás da fala de Bolsonaro — não é só é que é preciso salvar a economia (seja lá o que isso signifique), que é preciso salvar a candidatura de 2022, que é preciso salvar o empresariado. O discurso de Bolsonaro não é um negacionismo da letalidade do vírus, ou se o é é em um nível superficial (igual a questão climática, como Paulo Arantes apontou em sua última fala na MIT), é antes um vetor do próprio vírus, a identificação dele com o vírus é integral ao ponto que ele estava infecto enquanto falava, transubstanciado num complexo humano-vírus, nunca o cinismo dele foi tão extremo quanto quando diz se caso viesse a contrair o vírus não haveria motivo para alarde pois sempre foi um atleta.

    Por que ninguém está comentando os cortes abruptos na filmagem? E o modo terrivelmente exasperado que ele se arrasta de uma frase até a outra, penso em isolar apenas essas respiros secos que ele dá conforme perde o ar, uma espécie de contra magia à operação mágica que ele realiza. Jair Bolsonaro se aproxima de sua forma final, um anjo da morte, um emissário da morte em massa — que melhor expressão haveria para o capital suicida ?




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